O viral e o orkut nas eleições 2010

No Brasil, pelo o que estou pesquisando, as eleições serão marcadas pelo viral. Nada de Orkut, nada de Facebook, nada de Twitter. O que vai bombar e decidir o voto será, em primeiro lugar, o viral. Junto dele as estratégias de marketing de guerrilha. O viral trará toda a cultura do humor nacional, que é o que manda na internet no Brasil – só ver os milhares de virais já assistidos no país, do “funk de não sei quem” aos personagens bizarros que se tornam célebres no youtube.

O viral tem um componente complicado: o anonimato (como todo mundo sabe, o anonimato sacode a internet, mas é visto por muito como algo covarde). Mas faz parte de sua cultura. O anonimato pode gerar um duplo movimento, o de trolagens e boatarias; ou de adesão colorida, por outro. A trolagem (espalhamento de comportamentos fraticidas, facistas, de má educação) pode fazer forte o candidato que é detonado pelo boato, pois que o vitimiza, tornando-se, portanto, injustiçado e objeto de má fé. Mas o efeito pior é do candidato que o troll busca defender, que, rapidamente,  acusado de estimular a boataria, passa a impressão que é um cara sem ética. Candidato bom age rápido quando é trolado: cria um blog somente para responder a rumores. E leva a melhor.

Agora, se o viral, usando o bom humor, defende boas ideias, não ataca  ninguém, e se possível, é crítico à realidade política, aí ele bomba. Quanto melhor a ironia, mais ele se espalha. É batata, como se dizia nos 50. Cai nas graça alheia. E  o candidato beneficiado pelo “bom viral” passa a ter mais presença online. Dificuldade nisso tudo: humor não é para qualquer um. É preciso ter time para fazer uma ironia. Sentido eleitoral disso tudo: Os vídeos e fotos de humor inteligente vão em cima dos indecisos, como se tem demonstrado as últimas campanhas políticas em que a web se tornou estratégica. Na Inglaterra, tornou-se moda pegar a arte de um outdoor de determinado candidato e colocar uma redação nova e uma imagem nova, zombando da cara almofadinha das fotos do marketing político.

E os virais preferidos são os de vídeos e os de fotografia. Toda remixabilidade própria da internet se encontra neles. E eles vão deixar os marketeiros políticos de cabeça em pé, porque estes não têm mais nenhuma possibilidade de controlar toda a produção da fábrica social de comunicação na rede. Nenhuma. Por isso que as campanhas já começam a produzir seus próprios virais, tentando abastecer a massa de usuários ávidos por boas risadas.

O viral consegue descontruir inúmeras mensagens maquiadas dos candidatos, desmascarar possíveis estratégias políticas, zombar da contradição nos discursos e, é claro, propagandear com muito humor através das recombinações de áudio, imagem e vídeo, ideias que podem circular como praga pela rede.

Como os políticos no brasil  já contam, há algum tempo, com o total descrédito da população, o viral servirá ainda como uma espécie de vingança social (sobretudo aqueles feitos pelos eleitores que não vão votar em ninguém). Mas existirão aqueles virais ideológicos, que servirão para propagar ideias e propostas dos candidatos, advogar temas, denunciar posicionamentos conservadores ou esquerdistas.

O restante das mídias online, sobretudo as redes sociais, devem seguir a tendência da orkutização. Ou seja,  o simples depósito de fotos e de textos, envio de replyes e recadinhos do candidato ao usuário, e vice-versa. Será um “muito obrigado” pra lá, “adorei” pra cá, “estou em não sei onde para fazer isso” etc. Geralmente educadinhos, mas sem nenhum sentido prático. Por um motivo óbvio, a entourage partidária se morde de medo de expor o candidato a algo mais, leia isso como : o diálogo do político com os eleitores. Medo porque os eleitores fazem já perguntas pra lá de capiciosas para os políticos, que geralmente se calam e não respondem. Ou quando o contrário, respondem através daquele migué clássico: vamos melhorar, estamos pensando, por que não acatar sua ideia, etc.

O orkut servirá para fortalecer os apoiadores. Não muda voto, mas também não ganha. Quem apostar no Orkut vai nadar e morrer na praia. Orkut do candidato não consegue mobilizar ninguém por lá além daqueles que já são seus fãs. É isso, Orkut é coisa para fã. Orkut virou um grande mural exibicionista e local de pegação entre os jovens. E local para trocar recados e mensagens animadas entre os mais adultos. Há ainda ótimas comunidades virtuais por lá. Mas, como as campanhas não conseguem estar em comunidades virtuais estratégicas (porque são inúmeras) , o Orkut deve se encaminhar para ser um espaço em que as campanhas traçarão estratégias bem específicas, com nichos específicos, o de apoiadores-fãs, para fazer espalhar os conteúdos, e fazer dos apoiadores aqueles que vão ficar repetindo bordões, para além do bem e do mal. E ali o foco deve ser de acertar em cheio a população mais adulta, que está a colonizar o ambiente. São os pais e mães que agora descobriram a ferramenta, enquantos os filhotes fogem para outros lugares.

O Twitter nas eleições, cena dos próximos capítulos.

1 Comentário

  1. Grande Malini!

    Pelo que entendi, você preconiza que esta eleição será a eleição do remix, e da guerrilha. Concordo, mas não acho que o Orkut seja “tiro n’agua” acho que ele tem o seu potencial, e penso que novas ideias criativas irão mudar o caminho das eleições.

    Estou fazendo um texto mais ou menos na linha, mas com foco no marketing que de certa forma conversa com o seu, alias debate mesmo.

    Aguarde…

    Abraços livres

    Caribé

  2. Oi Malini,

    Bem interessante o seu post.

    Mas fiquei pensando sobre o que você fala em relação às redes sociais. Concordo que para quem está ou esteve recentemente no poder a coisa fica um tanto burocrática por conta da impossibilidade de dar respostas satisfatórias pros eleitores.

    Mas pra quem vem com um discurso de oposição e que nunca foi testado no governo pode ser bem fácil corresponder à indignação dos eleitores. Estou pensando nos partidos mais radicais, como o PSOL, mas isso também serve pro PV, que mesmo tendo aliança com o DEM e PSDB, vende a ideia de que é “algo totalmente diferente de tudo que está aí”.

    Isso sem falar nas candidaturas proporcionais que certamente vão poder lucrar bastante com a difusão de suas campanhas nas redes.

    Bom, também estou bem curiosa para ver qual será o papel das redes nestas eleições.

    Um abraço,

    Bia

  3. Essa eleicão comecou a ficar interessante. Aqui na Suécia também é ano eleitoral. O debate sobre o papel das redes sociais nesse eleicão tem estado em alta desde a campanha de Obama. O interessante é que os políticos locais comecarão suas campanhas semana passada fazendo, acredite ou não, campanha de porta em porta. Eles estão, lógico, mais ativos no facebook, por exemplo. Mas é o door-to-door que está valendo.

    Um abraco
    solange

  4. Sensacional. Fica a dica, creio, para todos os atores desse cenário político. Se hoje, recebo um e-mai de correntes com piadinhas montadas sobre candidato x ou y não é atoa. Os virais chegam por aí também, depois se perde o controle. Acho que essas eleições vão ser da perda do controle.
    Abs,Lori

  5. Interessante sua abordagem acerca dos virais (termo que é novidade pra mim que não sou da área). Seria legal postar no seu blog/Twitter virais mais badalados relacionado às eleições no Brasil para que os leigos acompanhem o que ocorre no campo da virtualidade. E o Twitter, jogará papel relevante, na sua opinião? O Serra parece estar tentando passar uma imagem mais humanizada no seu twitter. O da Dilma e dos candidatos do ES não tem nada de interessante. Viu o furo da Dilma naquele site que você destacou (dilmanaweb)? Ontem o CQC mostrou no TOP FIVE: Nordeste pra ela não é Brasil.
    Neide Vargas (Profa Economia- UFES)

  6. Acho o debate interessante e fundamental no contexto da comunicação mediada, mas ainda considero que o momento será de observação. A cada dia somos surpreendidos por novas linhas (redes) de produção de conteúdos “previsíveis e imprevisíveis” nesta perspectiva livre, horizontal e rizomática.
    A tendência a um certo predomínio do marketing viral nas eleições de 2010 é inegável, mas não diria que este mecanismo tenda a definir, isoladamente, um processo eleitoral. Nào minimizaria também os efeitos do Orkut, ou de nenhuma outra rede, ainda que possam se constituir ou consolidarem-se como meras “vitrinas”. Creio que a proposição de conteúdos como memes pode emergir em qualquer espaço virtual e o determinante para sua replicação em rede será resultado da ressonância (em conteúdo e expressão) que possa despertar entre usuários de uma rede, atribuindo-se, então, ao mesmo, uma qualidade viral. Entendo assim, que a qualidade viral é efeito, sobre idéias (conteúdos) potencialmente com força num dado contexto ou formação cultural. Já dizia Dowkins que os memes fazem na herança cultural o mesmo que os genes na herança biológica: disputam um espaço de sobrevivência, onde só os já potencialmente mais fortes ( ou resistentes) sobrevivem. Entendendo a comunicação como um processo dialógico ( Bakhtin) , o papel fundamental das assessorias de marketing político será buscar no universo axiológico do eleitor, o que pode despertar, de alguma forma seu interesse ou suprir uma necessidade, desejo ou crença de forma a consolidar semanticamente os discursos em consonância com o enunciatário-alvo, para que ele, somente ele, assuma o papel de replicador.
    Mas ainda são reflexões iniciais.

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