“Não é o Partido que vai nos salvar da globalização”

O tom ácido a certas visões conservadoras da esquerda, principalmente àquelas que demarcam o protagonismo do partido como vanguarda, faz Negri apelar ao nosso realismo:

"Não há mais como construir o Partido. Não é o partido que move o mundo. Olhe o caso do Movimento de Seattle, que mobilizou múltiplos sujeitos contra essa ordem única. É necessário substituir os princípios leninistas por princípios democráticos. Na Itália, fizemos isto na década de 70, redefinindo e modificando o que era ser operário, trabalhador. E operário não era ser trabalhador fordista. Fizemos isto atravessando, reencontrando os corpos, para além da ideologia, vendo como os trabalhadores criavam, se reuniam, viviam, cooperavam e se expressavam. O movimento impôs uma mudança. Mudamos então o que era a classe operária. Não era mais a classe operária fordista. Mudamos com isso o poder capitalista, que teve que se transformar. Portanto, o mundo multilateral pode ser consolidado se na Europa e na América Latina essa forma de ser esquerda se afirmar", discursa.

Aplausos, aplausos, aplausos. A platéia reage. É a primeira afecção.

“A pobreza tem dois rostos”

"Aumentado de fala", Negri vai chegando em uma alta frequência , quando afirma que não é a necessidade que move o sujeito. Soa como um soco a ideologia da esquerda tradicional. O que move o sujeito é a luta. "Não existe necessidade objetiva. Não há isso. O que há sempre é uma luta constante para resistir aos mecanismos de produção da miséria", diz.

Em seguida traduz a sua visão sobre que seja a riqeuza do pobre. "A pobreza tem dois rostos, dizia Marx. O primeiro é o reduzido pelo capitalismo com seus processos de exploração. O outro rosto é o máximo de potência. O pobre tudo pode produzir. Ele tem de produzir por viver no limiar da ausência". Toni Negri aponta para os militantes declarando que esse é um paradoxo produtivo, que não podemos esquecer ao fazer militância.

A crise é do capital e do sindicato

Aquilo que era esperado de Antonio Negri seria o comentário sobre a crise política no Brasil e o devir esquerda. Engraçado que a fala era esperada no mesmo dia que o P-SOL se envolvia com a crise também, com o recebimento de mensalinho de um senador do partido. Negri contextualiza a crise política brasileira como algo que não se restringe à nossa localidade.

"Não me assusta a crise. A crise envolve um impulso descrescente da política, ao mesmo tempo em que há um impulso crescente das lutas sociais. Veja o caso das lutas globais. Se é verdade que o ciclo de lutas globais está em crise é porque o poder neoliberal também está. Eles [o poder americano] perderam. E há nessa forma de perda a derrota do capitalismo. As lutas políticas tem de acontecer novamente. Elas que vão mexer com o capitalismo. Na Europa por exemplo, elas estão ocorrendo. É a luta do precariado. Contra as formas de precarização do trabalho. A luta é por deslocamento, pela renda mínima. É o cognitariado tirando impulso, força, da miséria em que se vive. É tão séria que a luta é também contra o sindicalismo. Por que o sindicalismo defende o emprego, benefício somente pra quem tem salário. No Primeiro de Maio o precariado foi às ruas também contra os sindicatos que não mais o representa. É só dentro desse quadro geral de crise que podemos resolver os problemas".

Esquerda: abra-se ao precariado

Negri é indagado pelo prefeito Lindberg Farias: como acumular forças para produzir a mudança social? O ex-deputado relata que no Brasil as forças de esquerda realizaram aliança com setores da burguesia nacional (como um contraponto às forças monetaristas) e acabou "não dando certo". O resultado foi a crise política. O filósofo italiano responde que viu e viveu uma repetição de crises da esquerda. Concorda que a capacidade de resistir tem muito haver com o acumúlo de força, de alianças. Mas deu opinião que levou a aplausos longos pela platéia:

"Estou convencido que é fundamental tentar sempre novas aberturas, como se aliar a setores da produtivos, como a indústria, diante do que é o parasitismo do sistema financeiro. Só que hoje existe uma outra abertura que precisa existir: a abertura às forças do conhecimento. Não podemos subestimar as forças do conhecimento. Esse é um fato estratégico do desenvolvimento econômico mundial. Pode parecer realista demais, mas não é. Ao contrário, é alta a necessidade de articular projetos sociais com a produção intelectual. O que está acontecendo no século pós-socialista: o trabalho está ficando cada vez menos industrial. Os capitalistas, através das técncias neoliberais, mobilizaram socialmente a produção. Colocaram a sociedade no trabalho. E são os intelectuais que dão valor à produção. Impõem a possibilidade de mudanças industriais, formam novas elites. O trabalho intelectual é um elemento fundamental que não exclui o capitalismo (por isto que o poder neoliberal se articula) . Então é necessário se abrir à força do conhecimento para compor uma novo acúmulo de forças, para produzir novas resistências. Entrar nesse terreno é produzir uma ética do comum. Muitos amigos me indagam dissendo: 'Nossa, mas você não ver quanto miséria tem aqui do seu lado'. É um discurso que dá entender que o trabalho imaterial é algo utópico frente à realidade de miséria. Mas é o contrário. Só esse setor (o intelectual) renova a sociedade e expulsa essa miséria. Não adianta: a aliança com a indústria não vai fazer voltar o pleno emprego. Agora para produzir trabalho intelecutal, imaterial, é preciso ser livre. Por isto que o capitalismo bota limite a liberdade hoje, coloca a não-expressão. E a liberdade do trabalho intelecutal pode vencer o capitalismo. É necessário organizar o precariado, que são todas as pessoas que trabalham fora da relação salarial, como os trabalhaodres dos serviços, dos servi;os industriais, os imigrantes, os informáticos etc. Essas são massas que estão se tornando as maiorias. Não é à toa que na França foram às ruas contra os sindicatos. É porque o sindicato ainda sustenta que o emprego é a única solução. E o precariado produz fora da relação salaial, produz na circulação social. Por isso que projetos como a renda universal e a política de cotas se tornam centrais: nào é um prêmio, é a base para mobilizar toda a sociedade.

Novamente, a platéia foi além dos aplausos, gritando muitas interjeições. Foi o momento mais legal. Senti que as pessoas completamente conectadas. A miséria nossa de cada dia foi valorizada e potencializada. O papel de Negri, como filósofo, se realiza. O prefeito Lindberg atento e completamente tomado. Todos nós. Beleza.

No debate, Giuseppe Cocco critica “Estado Racista”

Em um debate importante, o autor de Global destca que o problema do Brasil não é só o neoliberalismo, mas o Estado:

É preciso colocar a produção do saber no interior das produções das lutas. Isto para acabar com a dimensão elitista brasileira. Acabar com a desigualdade universitária no Brasil. Nomadizar é criar novos espaços de saber e espaços de lutas. No Brasil 2,7% das pessoas estão dentro das universidades federais. Saber no Brasil significa que um outro não saiba. Em um contexto de produção imaterial, de economia do conhecimento, isto nos paralisa. E isto (a não universalização) fez com que a educação superior se tornasse um grande business a partir da década de 90. O problema do sucateamento da universidade no Brasil não é o neoliberalismo. A universidade foi sucateada pelo corporativismo. Para cada professor há cinco alunos na Universidade. Na minha universidade [Cocco é professor da UFRJ] as greves são decididas por 20 professores. E todos os outros 3 mil ficam em casa recebendo sem trabalhar. Muitos não contestam. O neoliberalismo é muito pouco historicamente. São só dez anos. O que sucatea é um estado escravagista, autoritário, patrimonialista, que existe há vários séculos. Com isto não estou tirando o peso do neoliberalismo como produtor de miséria. Mas o problema do Brasil não é o neoliberalismo, é o Estado. O neoliberalismo integra pelo mercado. Dá telefone celular pra todo mundo e depois todo mundo se vira para trabalhar e pagar a conta no final do mês. É perverso isto. Mas a Telerj não conseguiu dá telefone pra todo mundo.

Reduzir juros não é solução, diz Cocco

Giuseppe estava afiado. Cotagiou a platéia também a sair do clichê midiático que a solução brasileira é a redução de juros e a mão salvadora do Palocci.

A solução no Brasil passa pela radicalização da democracia. 1 milhão de dólares para despoluir a baía de Guanabara pode ser nada se não houver democracia. Pode ser uma cifra inflacionada. Vai passar o tempo e baía vai continuar poluída. Os juros é um problema do Brasil, mas a redução deles não necessariamente resolve os nossos problemas. Isto porque a maioria das pessoas não tem sequer conta bancária. E pior do que os juros são os preços. Para o pobre, é melhor ter juro alto para ter preço baixo. Do que ter inflação. Henrique Cardoso ganhou duas vezes a eleição pois optou por isto. Não há como a gente esperar mais uma política econômica salvadora. A política econômica não vai possibilitar a universalização do emprego salarial. Esse é um horizonte impossível, mas que as esquerdas ainda acreditam, de forma abstrata. A política econômica está presa à irreversibilidade da globalização, à interdependência dos mercados. Temos que optar e perceber que é a política social – e não só a econômica – que pode modificar a estrutura econômica brasileira. Veja o caso da bolsa-família. É uma política para os pobres. É uma política revolucionária. Apesar de alguns setores do governo e da sociedade pensar que ela seja só uma política compensatória. O pleno emprego não é mais horizonte. Ter renda, hoje, é poder construir a condição a priori para ser produtivo. Antes, no pleno emprego, ser produtivo é uma condição a posteriori. Só tendo salário pode se ser produtivo. A bolsa família, ao possibilitar a renda, impulsiona o cidadão para uma produtividade. As cotas também são revolucionárias, pois insere na produção de saber aqueles que sempre foram marginalizados pelo Estado autoritário e racista . O saber é o centro do capitalismo atual. Então são as políticas socias que possibilitam a integração econômica. Não há como esperar uma nova política econômia para ser política social.

Uma mesagem para militância

Negri fechou a sua participação convocando todos para uma conversão ideológica. Uma ruptura geracional. Muitos já formulavam a sua opinião sobre a palestra, principalmente, os sindicalistas ficaram chocados com alguém que acabaram com os seus clichês e não perceberam que a filosofia de Negri trazia para eles uma possibilidade de liberação. De aumento de liberdade. Mas como sou da comunicação, sei que o efeito do discurso é de longo rpazo, mesmo que tenha respostas de curto prazo. Não sei o que vai ficar para as pessoas de Nova Iguaçu que estiveram lá, mas pelo menos vão ter um dilema ideológico para ser resolvidos nos grupos de miltância. Negri aponta a sua última fala como uma chamda para a construção de um outro mundo: imanente e não transcedente. Real e não abstrato.

A miltância hoje não é distribuir panfleto, colar cartaz, dizer palavras de ordem. Militar é investigar. Fazer pesquisa para entender esses desdobramentos do trabalho. Identificar a capacidade produtiva do trabalho para fazer militância. É um trabalho cultural. Queria dizer algumas outras coisas: a divisão do primeiro e do segundo mundo é cada vez mais volátil. E nas sociedades onde o peso colonial ainda é forte (onde o problema de raça persiste) as políticas de cotas libertam as amarras coloniais. Hoje o que é a precarização no primeiro mundo se aproxima muito do que seja a exclusão no terceiro. Como responder então a precarização e a exclusão? É a mesma resposta que daria para como responder a crise política no governo Lula: qual é o nosso nível de acúmulo de indignação e de insuportabilidade? Isto é importante, agora, não para organizar caminhos de fuga oportunista, mas para acumular ruptura de base. A globalização não tirou a possibilidade de transformar o mundo, mas diluiu sobre toda a face da terra essa possibilidade. Há várias cargas políticas hoje no mundo pronta para explodir. Temos de reconhecê-las para guiá-las. Hoje portanto o grande problema é se inserir no mercado mundial buscando localizar essas questões. Não se trata de auto-flagelamento, mas estar sempre pronto para uma tentativa de renovação.

Fim de papo, mas não de afecções… amanhã continua no Capanema.

E o Rio de janeiro continua… o mesmo

Acabo de chegar no RJ. Serãoquatro noites intensas de vivência negriana. Anh!? É que o filósofo Antonio Negri já está na cidade. Inclusive hj saiu uma entrevista com ele no Globo. Lança hoje às 14h o livro Multidão em Nova Iguaçu, na periferia da cidade. Achei ótimo a idéia de realizar a sua primeira palestra no subúrbio da cidade. Tem um significado simbólico importante: ao invés do ar condicionado das livrarias de Ipanema, optou pelo calor úmido da exclusão. Bom, como estou no RJ e Nova Iguaçu é depois de Niterói vou me deslocar como de Vitória a Guaraparia de buzão… gostei dessa "subversão das polaridades" da turma organizadora do evento. Vou relatar as palestras do Negri no blog diariamente (exceto domingo, pois ele janta com o Gil e estou barrado desse evento).

Vou aproveitar para ir ao cine. Assistir Eros, de Antonioni e Sandenberg.

A dimensão digital vai ficar de lado, e vou fazer uma cobertura da política do digital, que Negri deve abordar.

E o RJ continua a mesma coisa: cachorro que morde gente, mortalidade de peixe devido à poluição das lagoas, traficante que invade os bairros nobres, etc etc etc… Só Negri salva…

Flash Jornalismo

Uma tendência excelente no jornalismo: o flash jornalismo. Trata-se de apresentar conteúdos jornalísticos em linguagem flash, eliminado a idéia de página, que perdura há séculos. Hoje está sendo utilizado para disponibilizar especiais. A navegabilidade é excelente e focada em uma tema específico. No Brasil, o único jornal que adota essa linguagem é o Jornal do Commercio On Line, de Recife. Na Argentina, o Clarin. Alguns dizem que o Flash Jornalism é a quarta geração do jornalismo na web. Há até um livro online sobre o flash journalism.

Conselho de Ricardo Kotscho

Em entrevista para o Observatório da Imprensa, o grande jornalista Ricardo Kotscho opina sobre o jornalismo de blog:

E o jornalismo de blogs?

R. K. – Eu acho ótimo. Eu gosto de jornalismo de todo tipo. Existe o bom e o ruim. Existem coisas bem feitas e picaretagens, nos blogs, nos sites, em todo lugar. É um novo caminho. Nunca poderia imaginar que fosse trabalhar na internet e minha principal atividade, hoje, é colaborar num site.

Por que o jornalismo de blogs é um novo caminho?

R. K. – Porque tudo é informação. Eu sou a favor da democratização da informação. Quanto mais gente estiver informando, mais gente está sendo informada. Mas não é tudo igual. O Noblat é um cara que, apesar de ser muito crítico ao governo e muitas vezes eu discordar dele, é um jornalista profissional que faz um trabalho profissional. E também há picaretas que, evidentemente, usam o espaço na internet para ganhar dinheiro, como existe na imprensa em geral, no Brasil inteiro.